o país que não se pode levar a sério



Vivo neste retângulo de terra, bordado de mar. Pequeno, com serras verdes, rochosas, planícies extensas, preguiçosas, rios rápidos, lagoas tranquilas, património arquitectónico, secular, comida simples, maravilhosa e gentes de sorriso fácil, discreto,  tristonhas como o fado.
Gente valorosa, assim se testemunha, destemida, capaz de fazer história. 
Vivo neste país de gente boa, que vive de histórias. Que sabe ter sido grande, mas que se gere na escassez.
As minhas convições sobre governação (e política) são fugazes, baseiam-se em olhares, gestos,  sobriedade, constância e indubitavelmente no respeito pelos direitos humanos. Por isso alegra-me sermos um país de gente boa, ainda que contraditória e desorientada.
Somos gente boa, acolhedora, desdobramo-nos em gestos e palavras em inimagináveis idiomas, para socorrer quem chega triste à procura de futuro. 
Paradoxalmente, falta-nos tempo e paciência para conversar com os nossos.
Somos gente boa, por vezes, damos cama às visitas e pedimos aos filhos para dormir fora. 
Somos gente boa. Defendemos o direito universal a um lugar onde se possa viver, encolhemo-nos para que outros caibam. Ainda bem. Acredito que a mesmecidade não acrescenta, que a diferença nos tornar maiores, quando o respeito pelo outro está presente. Oxalá esteja sempre.
Vivo neste país onde apesar das  contradições, das ingerências e do desnorte (ainda) há terra, liberdade e paz e isso é um privilégio inestimável.
Vivo neste país apagado, sem centralidade geopolítica, onde falta sonhar e fazer.
Vivo neste país que não se pode levar a sério e, talvez por isso, ainda podemos fazer escolhas e sair à rua sem medo.

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