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desfrutar da liberdade de ser desimportante

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O cheiro a musgo e a terra invadem tudo. Entranham-se. Os pássaros, atrevidos, interrompem o silêncio — e ninguém se importa. Nada perturba. Sem relógio, sem telefone, sem coordenadas, sem compromissos. Apenas as setas amarelas e os passos. Só isso. Naquele Caminho calcorreado por centenas de peregrinos, entre silêncios e olhares de aceitação, é-se só mais uma pessoa à procura de si própria — e isso é tudo. Longe, o seu  mundo, a família, o trabalho e os amigos seguem naturalmente os dias, enquanto ela se despe da presunção de ser imprescindível. Nesses quilómetros de natureza, longe do comezinho quotidiano, sente a alegria serena de ser desimportante.

Quem eras tu antes de seres aquilo que os outros precisavam?

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Era livre. Subia aos montes, descalça, trepava árvores, andava na minha bicicleta vermelha e ria. Tinha o cabelo desgrenhado e os joelhos esfolados  —  nódoas negras, nódoas de fruta na roupa. Riscos de melancia das mãos aos cotovelos, a cara pintada de vermelho doce. Nada importava. Depois houve tréguas no riso.  Só silêncio — a vida suspensa, como se tivesse pendurado na porta: não incomodar . Voltou mais tarde, no Quebra-Costas, no D. Dinis,  nas ruas e jardins de Coimbra, embrulhado em capa e batina. Ali fui feliz, não para sempre, mas como quem come uvas directamente da cepa. Desde então é intermitente, imprevisível e especial  — e basta.

o cheiro dos livros

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É um enorme prazer folhear um livro já lido. Páginas marcadas guardam emoções, sons, sabores, vidas. Na cidadela de Cascais há uma casa de livros já lidos: Déjà Lu. Um projeto solidário, de um bom gosto raro, como o nome anuncia. Ali, os livros chegam com história. Alguns trazem notas, sublinhados, marcas silenciosas de quem já os viveu. É uma casa feita de divisões, onde habitam livros de muitas nacionalidades, temas e tempos — como se cada sala fosse um pequeno mundo. Há ali preciosidades, expostas como obras de arte. Mas o que mais me prende é a alma do lugar. Volto sempre que passo por perto. Nunca é igual. Há sempre um detalhe novo: uma frase deixada à margem, uma poltrona que convida a ficar, um marcador, o cheiro dos livros — esse cheiro fundo, que se entranha e permanece. Sou uma leitora que se apropria dos livros. Sublinho, escrevo, tomo notas. Leio com todos os sentidos. Talvez por isso este lugar me toque tanto. Aqui não há apenas livros — há livros atravessados ...

Consequência inevitável de você I Tom Jobim

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Escrever começou na escola primária com  as composições,  temas sugeridos ou temas livres. Era um momento feliz, esse de contar ou construir com palavras alguma coisa que ainda não existia. Depois vieram os diários, as cartas. A facilidade de pôr emoções em palavras foi-me acompanhando,  pontualmente apenas.  Havia o medo de não escrever nada interessante, o julgamento dos outros a calar-me antes de começar. Um dia escrevi um poema e publiquei-o. Os comentários foram encorajadores, apesar disso fiquei muito tempo sem escrever.  A agenda preenchida, os dias a correr, afastaram-me do papel e de mim. Escrever era parar. Era deter-me nos detalhes, sentir e aceitar o sentir, imortalizá-lo e mostrar-me aos outros. Foi numa conversa leve sobre escrever que o Miguel fez qualquer coisa simples e decisiva: retirou o julgamento dos outros. Propôs leveza, experimentação. E de repente havia um compromisso semanal que não pesava. Continuo exigente — à procura de uma versã...

dançar no caos

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Desgrenhada, era assim que via a vida. Era também o que o espelho devolvia: um subtil desalinho que a coloria. Havia dias de joelhos no chão, outros de cabeça erguida, sem máscaras. Havia um orgulho nesse ar de quem enfrenta, a nu, o que aí vem, como se todos os ritmos coubessem no corpo; Como se o caos fosse pista de dança.

sê inteiro

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Era feita de pedaços. Flores e ervas daninhas em convivência desordenada. Um patchwork de vivências mal costuradas. Queria ser inteira. Mas ser costurada era inevitável — a vida faz rasgos. A inteireza que desejava vestia-se de verdade: aceitar cada pedaço, dar-lhe palco. Levar à cena esta mulher feita de tantos.

o tempo é tudo o que tens

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Quando ela, insistente,  dizia: — vamos!  Ele olhava-a com ternura. Estendia a mão, puxava-a para a terra fresca da margem. Depois, em voz baixa, pedia: — fica O tempo ali tinha cheiro. Tinha som. Tinha espaço. Tinha luz dourada. Era deles, corria lento, tomava a forma dela no seu abraço. E isso era tudo.