o cheiro dos livros


É um enorme prazer folhear um livro já lido. Páginas marcadas guardam emoções, sons, sabores, vidas.
Na cidadela de Cascais há uma casa de livros já lidos: Déjà Lu. Um projeto solidário, de um bom gosto raro, como o nome anuncia.
Ali, os livros chegam com história. Alguns trazem notas, sublinhados, marcas silenciosas de quem já os viveu.
É uma casa feita de divisões, onde habitam livros de muitas nacionalidades, temas e tempos — como se cada sala fosse um pequeno mundo.
Há ali preciosidades, expostas como obras de arte. Mas o que mais me prende é a alma do lugar. Volto sempre que passo por perto.
Nunca é igual. Há sempre um detalhe novo: uma frase deixada à margem, uma poltrona que convida a ficar, um marcador, o cheiro dos livros — esse cheiro fundo, que se entranha e permanece.
Sou uma leitora que se apropria dos livros. Sublinho, escrevo, tomo notas. Leio com todos os sentidos.
Talvez por isso este lugar me toque tanto. Aqui não há apenas livros — há livros atravessados por leitores. E isso é uma riqueza impossível de medir.
Desta vez, trouxe comigo A Casa Quieta, de Rodrigo Guedes de Carvalho.
Abri-o ao acaso. Um sublinhado deteve-me: “deitado junto ao cão agora que não estás Mariana do outro lado da trela”.
Fiquei ali.
Sei o que é uma casa quieta.

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