“Tenho sonhos cruéis... l Camilo Pessanha

 
"Tenho sonhos cruéis; nalma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudade"

Era cruel sonhar ser feliz.
Doía-lhe por dentro,  a tristeza sacava-lhe os ossos.
Estava despovoada.
As pálpebras eram diques prestes a ceder.
Sustentavam um mar antigo, espesso de ausências.
Abrir as comportas era abrir os olhos para dentro — visitar cada divisão vazia, inundada de dor.
Os dias afinavam-se pela ausência.
Olhos fechados. Respiração lenta.
As mãos pousadas no peito, pareciam procurar as fissuras na parede antes que a casa ceda.
Aceitava o sol e o chão que se compunha.
Sussurrava: vai passar —
como quem espera que o semáforo mude numa rua deserta.
Nesse tempo, dias e noites eram prenhes de sonhos cruéis, vagos mas cruéis.
(Às vezes ainda são.)
Outras vezes eram nítidos:
a vida regressava em passos leves, em
vozes felizes de quem encontrou um lugar,
de quem promete ficar.
Nas contradições e com um vago receio prematuro, foi-se colorindo.
Povoando-se.
Ensaiando a esperança, como se testasse a profundidade da água antes de mergulhar.

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