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“O que permanece quando ninguém prometeu ficar “

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Permanece um tempo desalinhado, entre o peito e o calendário. Permanece o lamento do que não foi, uma saudade apressada. Permanecem geografias de afetos, caminhos de cumplicidade. Fica espaço, demasiado espaço. Almofadas, desabitadas,  Uma escova, Um livro esquecido. Permanece a ausência de conflito,  a  lisura do fim. Fica frio.  Galhos que não fazem um ninho. Permanecem verbos por dizer, e o engano de que o silêncio basta. Permanece o sal, em pirâmides brancas, Permanece o cheiro a mar e a coentros, O som dos pássaros, nas árvores. O sol e a poesia, Permanece o amarelo, resistente, das ginkgo bilobas. Permanece a alegria da Luna em  cada regresso.

quanto dura o agora?

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Sentavam-se ali, naquele lugar cheio de sol e de passado.  Não combinavam horas. Havia um entendimento, quase subliminar, o  agora era o tempo certo. O mundo que as habitava, vinha das Seleções Reader's Digest, das janelas, e das vidas que imaginavam a circular nos comboios que, em cadência, interrompiam o murmúrio do Tejo. Agora , tinha o tamanho dos anos vividos. Amores, filhos, fome, riso, trabalho, artroses, ler, comboios, ladeiras, conversas, luto, Tejo. Agora durava o tempo em que sentadas naquelas cadeiras desfiavam histórias e tricotavam pegas e xailes, indiferentes aos relógios sem ponteiros. Agora , durava o ontem e o amanhã ao mesmo tempo - era a vida inteira, ali,  nas suas cadeiras.

Quando, ainda, crescíamos analogicamemte …

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Segura o mapa. Segue o traço com o dedo, sente a estrada, devagar, um caminho feito de passos c omo antes. Quando as horas eram longas, sem urgência.  Sente o verde, o sol e o correr da água. Esquece a voz que insiste: sai pela terceira saída. Fica. Dá-te tempo de viver por ali, onde cresce o rosmaninho e as pedras afloram da terra. Pedras seculares, férteis em  história. Fica.

"Não digas nada, dá-me só a mão" I Lobo Antunes

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A dança da vida _ Edvardo Munch Sempre soube que tinha uma ausência quase científica de noção rítmica. Até hoje. Puxaste-me para o centro da pista, sem margem para protesto. — Não digas nada. Dá-me só a mão. Obedeci. E foi então que percebi: a melodia também se lê, com o corpo.

o que fica depois de ficar

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Fica uma casa cheia. Barulho em tons de melodia. Discussões sobre vírgulas, tostões, a cor da parede e que semente se põe na terra. Sopa de mãe. Vinil a rodar no prato, em  constante alegria. Um quente inequívoco de fogueira. Lar é o que fica depois de ficar.

A vida é feita de momentos presentes que alteram o futuro

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Naquele lugar muralhado, o tempo demorava. As palavras corriam ao ritmo do rio lá em baixo. O silêncio era leve como algodão doce. Algo se desvelou sem aviso, como uma echarpe que escorrega do ombro. Disseste: o problema é que   a partir de hoje, o caminhar já não é só meu. Bastou o instante em que o pé não recuou. Bastou aquele momento para alterar o futuro.  Ficar tornou-se o resto da vida.

“Tenho sonhos cruéis... l Camilo Pessanha

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  "Tenho sonhos cruéis; nalma doente Sinto um vago receio prematuro. Vou a medo na aresta do futuro, Embebido em saudade" Era cruel sonhar ser feliz. Doía-lhe por dentro,  a tristeza sacava-lhe os ossos. Estava despovoada. As pálpebras eram diques prestes a ceder. Sustentavam um mar antigo, espesso de ausências. Abrir as comportas era abrir os olhos para dentro — visitar cada divisão vazia, inundada de dor. Os dias afinavam-se pela ausência. Olhos fechados. Respiração lenta. As mãos pousadas no peito, pareciam procurar as fissuras na parede antes que a casa ceda. Aceitava o sol e o chão que se compunha. Sussurrava: vai passar — como quem espera que o semáforo mude numa rua deserta. Nesse tempo, dias e noites eram prenhes de sonhos cruéis, vagos mas cruéis. (Às vezes ainda são.) Outras vezes eram nítidos: a vida regressava em passos leves, em vozes felizes de quem encontrou um lugar, de quem promete ficar. Nas contradições  e com um vago receio prematuro, ...