Mensagens

amigos im_provaveis

Imagem
Viviam rodeados de pessoas, família, amigos, em casa e no trabalho. Mas havia um lugar vazio, tão interno que não era visível. Existia. Ocupava. Por vezes acontecia o improvável: encontravam uns olhos que liam para além das palavras, para além das letras.  Esse momento mudava tudo para sempre. Não era paixão. Não tinham crescido juntos, não partilhavam histórias, nem precisavam de explicações. Dos olhos que verdadeiramente leem nascem amigos prováveis.

há conversas que também são o caminho

Imagem
Quando as cartas ainda eram manuscritas, cada notícia, mensagem ou história chegavam devagar. Passavam por várias mãos, viajavam quilómetros,  demoravam dias, semanas ou meses, até encontrar o seu destino. Chegavam pelas mãos do carteiro, essa figura icónica, com a sua mala de couro. Abria as fivelas num ritual que acentuava o valor do que guardava e retirava uma carta. Aquela que era tua. Ver o carteiro aproximar-se já era alegria. Depois, o envelope selado, com o teu nome escrito, em bonita caligrafia guardava uma conversa entre dois. Um espaço íntimo. Um compromisso de ler, sentir e guardar. As palavras faziam todo um caminho antes de chegar a ti - como acontece nas conversas significativas. Esse caminho feito de palavras, não se fazia com pressa. Era sedimentado pela espera, pelo cuidado, pelo desejo do  encontro. Entre quem escrevia e quem recebia existia essa distância cheia de esperança. Havia todo um ritual — um caminho — entre o dizer e o sab...

desfrutar da liberdade de ser desimportante

Imagem
O cheiro a musgo e a terra invadem tudo. Entranham-se. Os pássaros, atrevidos, interrompem o silêncio — e ninguém se importa. Nada perturba. Sem relógio, sem telefone, sem coordenadas, sem compromissos. Apenas as setas amarelas e os passos. Só isso. Naquele Caminho calcorreado por centenas de peregrinos, entre silêncios e olhares de aceitação, é-se só mais uma pessoa à procura de si própria — e isso é tudo. Longe, o seu  mundo, a família, o trabalho e os amigos seguem naturalmente os dias, enquanto ela se despe da presunção de ser imprescindível. Nesses quilómetros de natureza, longe do comezinho quotidiano, sente a alegria serena de ser desimportante.

Quem eras tu antes de seres aquilo que os outros precisavam?

Imagem
Era livre. Subia aos montes, descalça, trepava árvores, andava na minha bicicleta vermelha e ria. Tinha o cabelo desgrenhado e os joelhos esfolados  —  nódoas negras, nódoas de fruta na roupa. Riscos de melancia das mãos aos cotovelos, a cara pintada de vermelho doce. Nada importava. Depois houve tréguas no riso.  Só silêncio — a vida suspensa, como se tivesse pendurado na porta: não incomodar . Voltou mais tarde, no Quebra-Costas, no D. Dinis,  nas ruas e jardins de Coimbra, embrulhado em capa e batina. Ali fui feliz, não para sempre, mas como quem come uvas directamente da cepa. Desde então é intermitente, imprevisível e especial  — e basta.

o cheiro dos livros

Imagem
É um enorme prazer folhear um livro já lido. Páginas marcadas guardam emoções, sons, sabores, vidas. Na cidadela de Cascais há uma casa de livros já lidos: Déjà Lu. Um projeto solidário, de um bom gosto raro, como o nome anuncia. Ali, os livros chegam com história. Alguns trazem notas, sublinhados, marcas silenciosas de quem já os viveu. É uma casa feita de divisões, onde habitam livros de muitas nacionalidades, temas e tempos — como se cada sala fosse um pequeno mundo. Há ali preciosidades, expostas como obras de arte. Mas o que mais me prende é a alma do lugar. Volto sempre que passo por perto. Nunca é igual. Há sempre um detalhe novo: uma frase deixada à margem, uma poltrona que convida a ficar, um marcador, o cheiro dos livros — esse cheiro fundo, que se entranha e permanece. Sou uma leitora que se apropria dos livros. Sublinho, escrevo, tomo notas. Leio com todos os sentidos. Talvez por isso este lugar me toque tanto. Aqui não há apenas livros — há livros atravessados ...

Consequência inevitável de você I Tom Jobim

Imagem
Escrever começou na escola primária com  as composições,  temas sugeridos ou temas livres. Era um momento feliz, esse de contar ou construir com palavras alguma coisa que ainda não existia. Depois vieram os diários, as cartas. A facilidade de pôr emoções em palavras foi-me acompanhando,  pontualmente apenas.  Havia o medo de não escrever nada interessante, o julgamento dos outros a calar-me antes de começar. Um dia escrevi um poema e publiquei-o. Os comentários foram encorajadores, apesar disso fiquei muito tempo sem escrever.  A agenda preenchida, os dias a correr, afastaram-me do papel e de mim. Escrever era parar. Era deter-me nos detalhes, sentir e aceitar o sentir, imortalizá-lo e mostrar-me aos outros. Foi numa conversa leve sobre escrever que o Miguel fez qualquer coisa simples e decisiva: retirou o julgamento dos outros. Propôs leveza, experimentação. E de repente havia um compromisso semanal que não pesava. Continuo exigente — à procura de uma versã...

dançar no caos

Imagem
Desgrenhada, era assim que via a vida. Era também o que o espelho devolvia: um subtil desalinho que a coloria. Havia dias de joelhos no chão, outros de cabeça erguida, sem máscaras. Havia um orgulho nesse ar de quem enfrenta, a nu, o que aí vem, como se todos os ritmos coubessem no corpo; Como se o caos fosse pista de dança.

sê inteiro

Imagem
Era feita de pedaços. Flores e ervas daninhas em convivência desordenada. Um patchwork de vivências mal costuradas. Queria ser inteira. Mas ser costurada era inevitável — a vida faz rasgos. A inteireza que desejava vestia-se de verdade: aceitar cada pedaço, dar-lhe palco. Levar à cena esta mulher feita de tantos.

o tempo é tudo o que tens

Imagem
Quando ela, insistente,  dizia: — vamos!  Ele olhava-a com ternura. Estendia a mão, puxava-a para a terra fresca da margem. Depois, em voz baixa, pedia: — fica O tempo ali tinha cheiro. Tinha som. Tinha espaço. Tinha luz dourada. Era deles, corria lento, tomava a forma dela no seu abraço. E isso era tudo. 

“O que permanece quando ninguém prometeu ficar “

Imagem
Permanece um tempo desalinhado, entre o peito e o calendário. Permanece o lamento do que não foi, uma saudade apressada. Permanecem geografias de afetos, caminhos de cumplicidade. Fica espaço, demasiado espaço. Almofadas, desabitadas,  Uma escova, Um livro esquecido. Permanece a ausência de conflito,  a  lisura do fim. Fica frio.  Galhos que não fazem um ninho. Permanecem verbos por dizer, e o engano de que o silêncio basta. Permanece o sal, em pirâmides brancas, Permanece o cheiro a mar e a coentros, O som dos pássaros, nas árvores. O sol e a poesia, Permanece o amarelo, resistente, das ginkgo bilobas. Permanece a alegria da Luna em  cada regresso.

quanto dura o agora?

Imagem
Sentavam-se ali, naquele lugar cheio de sol e de passado.  Não combinavam horas. Havia um entendimento, quase subliminar, o  agora era o tempo certo. O mundo que as habitava, vinha das Seleções Reader's Digest, das janelas, e das vidas que imaginavam a circular nos comboios que, em cadência, interrompiam o murmúrio do Tejo. Agora , tinha o tamanho dos anos vividos. Amores, filhos, fome, riso, trabalho, artroses, ler, comboios, ladeiras, conversas, luto, Tejo. Agora durava o tempo em que sentadas naquelas cadeiras desfiavam histórias e tricotavam pegas e xailes, indiferentes aos relógios sem ponteiros. Agora , durava o ontem e o amanhã ao mesmo tempo - era a vida inteira, ali,  nas suas cadeiras.

Quando, ainda, crescíamos analogicamemte …

Imagem
Segura o mapa. Segue o traço com o dedo, sente a estrada, devagar, um caminho feito de passos c omo antes. Quando as horas eram longas, sem urgência.  Sente o verde, o sol e o correr da água. Esquece a voz que insiste: sai pela terceira saída. Fica. Dá-te tempo de viver por ali, onde cresce o rosmaninho e as pedras afloram da terra. Pedras seculares, férteis em  história. Fica.

"Não digas nada, dá-me só a mão" I Lobo Antunes

Imagem
A dança da vida _ Edvardo Munch Sempre soube que tinha uma ausência quase científica de noção rítmica. Até hoje. Puxaste-me para o centro da pista, sem margem para protesto. — Não digas nada. Dá-me só a mão. Obedeci. E foi então que percebi: a melodia também se lê, com o corpo.

o que fica depois de ficar

Imagem
Fica uma casa cheia. Barulho em tons de melodia. Discussões sobre vírgulas, tostões, a cor da parede e que semente se põe na terra. Sopa de mãe. Vinil a rodar no prato, em  constante alegria. Um quente inequívoco de fogueira. Lar é o que fica depois de ficar.

A vida é feita de momentos presentes que alteram o futuro

Imagem
Naquele lugar muralhado, o tempo demorava. As palavras corriam ao ritmo do rio lá em baixo. O silêncio era leve como algodão doce. Algo se desvelou sem aviso, como uma echarpe que escorrega do ombro. Disseste: o problema é que   a partir de hoje, o caminhar já não é só meu. Bastou o instante em que o pé não recuou. Bastou aquele momento para alterar o futuro.  Ficar tornou-se o resto da vida.

“Tenho sonhos cruéis... l Camilo Pessanha

Imagem
  "Tenho sonhos cruéis; nalma doente Sinto um vago receio prematuro. Vou a medo na aresta do futuro, Embebido em saudade" Era cruel sonhar ser feliz. Doía-lhe por dentro,  a tristeza sacava-lhe os ossos. Estava despovoada. As pálpebras eram diques prestes a ceder. Sustentavam um mar antigo, espesso de ausências. Abrir as comportas era abrir os olhos para dentro — visitar cada divisão vazia, inundada de dor. Os dias afinavam-se pela ausência. Olhos fechados. Respiração lenta. As mãos pousadas no peito, pareciam procurar as fissuras na parede antes que a casa ceda. Aceitava o sol e o chão que se compunha. Sussurrava: vai passar — como quem espera que o semáforo mude numa rua deserta. Nesse tempo, dias e noites eram prenhes de sonhos cruéis, vagos mas cruéis. (Às vezes ainda são.) Outras vezes eram nítidos: a vida regressava em passos leves, em vozes felizes de quem encontrou um lugar, de quem promete ficar. Nas contradições  e com um vago receio prematuro, ...

o ninho seguro

Imagem
É literal - o  ninho seguro - em galhos, frágeis, despidos.  Os ninhos são construídos com   diferentes materiais, comuns,  pacientemente entrelaçados. Desse entrelaçado nasce a forma e o espaço. Todos os ninhos diligentemente erguidos para abrigar a vida, protegem, resistem a tempestades, são lugar de trinados de alegria e preparam quem os habita para os voos. Mesmo vazios, mantêm a estrutura, férteis em memórias, continuam a germinar a vida.  Num ninho seguro aprende-se a destrinçar ente escolhos e galhos, entre o que atrapalha e o que sustenta. Reparar num ninho que cumpriu o propósito, alimenta a esperança na vida.

aprendi a viver no lugar exato onde doeu

Imagem
Vivia ali, no lugar exato onde as dores aconteceram.   Por escolha habitava o pouco - pouco conforto, pouco ter. Sempre preparado para tempestades que roubam a paz e desafiam a esperança. Transformar(se) em condições adversas era um exercício que exigia coragem e pratica.  Sabia que as folhas que caem formam o húmus que nutre as sementes. Sabia que, depois de nu pelos ventos, o terreno à sua volta era mais fértil e a vida mais possível. Naquele lugar, todos os dias, acordava  com a determinação de levar um sorriso e um abraço, a corpos marcados pelo esforço e pela saudade, naquele formigueiro incógnito. Conhecia os nomes, abraçava cada um, como quem insufla oxigénio e devolve ânimo/vida. Viver no lugar onde doeu, era uma escolha,  uma aprendizagem,  uma cura.

a ausência do outro leva-nos bocados

Imagem
Viver era  alegria e ferida aberta. Muito cedo foi-lhe roubado um pedaço. Passou a ser, por definição, filha única; ela sentia-se apenas, filha incompleta. Fez-se invisível - para si e para os outros - para que o confronto com a perda não fosse esmagador. Existia suspensa num equilíbrio frágil, entre o peso silencioso do que faltava e o desejo de ser inteira. Foram precisos anos, abraços, amores e olhares para que uma nova forma se desenhasse, menos incompleta.

o país que não se pode levar a sério

Imagem
Vivo neste retângulo de terra, bordado de mar. Pequeno, com serras verdes, rochosas, planícies extensas, preguiçosas, rios rápidos, lagoas tranquilas, património arquitectónico, secular, comida simples, maravilhosa e gentes de sorriso fácil, discreto,  tristonhas como o fado. Gente valorosa, assim se testemunha, destemida, capaz de fazer história.  Vivo neste país de gente boa, que vive de histórias.  Que sabe ter sido grande, mas que se gere na escassez. As minhas convições sobre governação (e política) são fugazes, baseiam-se em olhares, gestos,  sobriedade, constância e indubitavelmente no respeito pelos direitos humanos. Por isso alegra-me sermos um país de gente boa, ainda que contraditória e desorientada. Somos gente boa, acolhedora, desdobramo-nos em gestos e palavras em inimagináveis idiomas, para socorrer quem chega triste à procura de futuro.  Paradoxalmente, falta-nos tempo e paciência para conversar com os nossos. Somos gente boa, por vez...